Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008

CARTA DO PORTO DE LISBOA

o teu nome meu amor o teu nome amanhecia quando

num verso a lua num homem o silente beijar de um afecto

quando em minhas mãos as tuas quando em lisboa o mar

o mar

 

trazias os verdes gestos de quem tão brevemente como regressa

de forma tão breve acaba sempre por partir

os verdes e redondos gestos de um nome por exemplo de pássaro ave migrante

o curvo e disponível nome de um navio fazendo escala

em todos os portos do mundo em todos os homens um beijo

trazias os braços e o peito vastos como o mar que te mora

os braços e o peito como luzidias pérolas

como o madrugar frio das ondas os braços e o peito como o inaugurar

da possibilidade onírica desta minha terra

 

em lisboa acontecemos em lisboa acontecemos há tão distante tempo

meu amor

 

e quantas marés terão entretanto socorrido a azul largueza

de nossa ausência.

 

eterna noiva do mar

o nosso verbo tão demorado como contrário à permanência do homem no

seu exacto instante presente e eu sei meu amor eu sei que nesse tempo

o meu corpo e a minha palavra não foram outros senão o nosso corpo

e a nossa palavra não foram outros senão o incisivo inscrever de nosso desejo

no túmulo do mundo

que nesse tempo meus pés talharam a sua geométrica simultaneidade

que nesse tempo logrei surpreender minha própria imagem tatuada

como deslumbre nos vidros embaciados dos edifícios

alquímica aspiração dos homens

evidente palimpsesto de todas as efemeridades e

fechando agora os olhos tanto tanto tempo depois ainda regresso a essa praia

que se ergueu como éden na fresca sombra de tua boca

e ainda os vejo

meus paralelos passos sepultados no mais invejável dos silêncios sem que

neles a luz implique outro tempo senão o da sua tranquila e inominada espera

pelo teu cintilante regressar

e que os banhes como a maré

que os venhas recolher como a um pedaço de teu mar.

 

como tuas mãos me estenderam o vislumbrar de meu nome

e como também a cidade se me revelou pela tua voz qual fantástica ilha

de trezenzónio como se me iluminaram a partir de dentro os nomes das ruas apenas

pela dança de teu caminhar como toda uma nova lisboa se ergueu nas

palavras dos temíveis e derradeiros viajantes da noite da cidade

e como em suas palavras floresceu também a nova luminosidade que teus

cabelos nas avenidas dispunham como um oceânico e exorável ouro

ornato númen teus cabelos soltos como o sibilante dizer de uma canção

na mais remota língua dos homens e do aroma da tua voz o apreender

do alimento que incendeia nossas vidas

a dissidente língua de lord chandos

e recordo-te agora desta mesa de café junto do porto de lisboa

recordo o fim de tarde em que do texto irrompeste como um

solidário e apaixonante braço tomando-me no profundo

do sangue

meu amor

o teu nome amanhecia como último pássaro quando

num verso a lua num homem o singular beijar de um afecto

quando em minhas mãos as tuas quando em lisboa o mar

quando no silêncio de nossas noites todas as possíveis canções

toda a ciência das coisas celestes ali tão de feição nos lábios

tão de feição no aproximar dos sexos no aproximar do rosto sobre a página e

tantas vezes o rosto entre as mãos

tantas vezes a mesa sozinha a cadeira sozinha na obliqua

posição de quem espera espera espera

uma espera além da construção do devir

os olhos baixos em torno de todo o espaço conferindo a implacável simetria

do abandono

tantas vezes os barcos tantas vezes as vozes esvaziando-se lentamente

do seu poder enunciativo

e nesta mesa de café morrendo morrendo.

 

recordo o fim de tarde em que tua salgadiça luz aconteceu

diante do espelho em que já me inscrevera e como tão doce

foi teu corpo dançando no meu minha boca dançando na tua

ali na sempre leviana qualidade da página ali naquela mesa de café

ali naquela lisboa de que hoje serenamente me despojo

para que no dia em nada mais senão o meu corpo me reste

possa também eu me fazer ao mar e partir no encalce das estrelas.

 

o teu nome meu amor o teu nome eterna noiva do mar na manhã em que partiste

antes de meus olhos fechados e como te esperei nesse vigilante lusco-fusco

entre todos os grandes dias e todas as grandes noites e como te esperei

nessa tua praia essa praia que acontece sempre que em um homem

a nua mão de outrem se desvenda

e esses grandes dias e essas grandes noites aperfeiçoando minuciosamente

os possíveis rumos da grande cidade

mas definitivo era o teu silêncio e definitivo o cerrar de minhas pálpebras

 

sozinho enfrentaria a minha última grande noite.

 

e recordo-te agora desta mesa de café junto do porto de lisboa

recordo o fim de tarde em que do texto o distinto marulhar de tua distante voz

foi a perfeita casa de todas as minhas palavras a perfeita medida

de meu corpo a exacta cor de minha pele

em ti aconteci como um homem dotado de um nome

um pedaço de carne e sonho

e meu amor ergueste-me uma cidade que ao teu toque

é já uma outra cidade um rio que é já um incomensurável mar

somente pelo perfume de tua aura arredondada pelas ondas

tua boca de maresia tua boca de um país distante

talvez perdido no mais fundo dos oceanos

 

um país para sempre gravado a sal na recordação de teu nome meu amor

pelas ruas desta lisboa que caminhámos juntos

bebendo dos passos um do outro a superior magia

de um homem resgatado em si próprio

 

volto todos os dias ao anoitecer a essa tua praia

 

a cidade repousa

o céu abandonado em um alvo silêncio

 

e é teu nome que chamo

o teu nome meu amor

 

e o teu nome eternamente amanhece quando

num verso a lua de todos os poemas e de todas as palavras

em meu peito o silente beijar de todas as plantas todos os animais

todos os grandes dias e todas as grandes noites

quando em minhas mãos o adivinhar das tuas

e quando em lisboa o mar

o mar

 

boa noite

regressar-te-ei.

 

Hugo Manuel Milhanas Machado

publicado por Manuel M. Oliveira às 16:08
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