Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009

REVÓLVER

Se calhar, o Céu

                                                             

No dia em que falarem de mim

como de alguém que passou

e depositarem ramos de flores

junto à lápide encomendada,

direi convicto: também eu vivi,

também eu, mortos, vos esqueci,

ou fiz de conta, perdoai-me,

que não era nada comigo.

 

E prometo, se for o caso,

acenar do cimo das nuvens,

(harpa nas mãos tangida

sob as arcadas do paraíso)

aos que apareçam na varanda

dos prédios onde morei

— caso ainda se tenham de pé —

e onde, umas vezes mal,

 outras vezes bem,

me deixei de palavras, de versos,

e amei.

 

Mesmo não tendo rezado

ou confessado pecados, ou comungado,

estive sentado em solo sagrado,

frequentei igrejas,

admirei os vitrais de Chartres,

persignei-me com a sinceridade possível

(não fosse alguém reparar)

e munido de um bom pretexto

para repousar as sandálias

nas pedras tementes a Deus,

bebi da garrafa de água frizzante,

mudei o rolo da máquina

e converti-me aos encantos do cristianismo.

 

Uma vez, eu pecador me confesso,

lavei as mãos nas santas águas

de uma pia baptismal.

 

Café Convívio

 

para Agostinho Santos, Álvaro Magalha Joâo Luís e Manuel António Pina

 

Somos daquela espécie de gente

que se frequenta dia após dia

(às mesmas horas sempre),

umas vezes como quem parte

outras como quem chega

e deixa no bloco de notas

secreto pensamento

colhido na mesa em frente.

 

Daquela espécie de gente

que recebe sonoros abraços

e assina pactos de solidão

enquanto os empregados,

sonolentos, apagam as luzes

— alumiavam nossas cabeças

esquecidas de ir embora.

 

Seguram na porta que dá para nós,

longos e vazios corredores

de onde queremos às vezes

 

(mas não podemos)

 

sair.

 

 

V.C.I.

 

para Paulo Evaristo e Pedro Quezada

 

O cântico dos carros sobe do asfalto.

Há quem venha espreitar a recolha do lixo

depois de jantar, enquanto fuma à janela,

respondendo para dentro à voz de criança

que chama no quarto, ou mais perto,

àquela que diz haver pratos na mesa

por levantar.

 

Um ecrã em cada lar

emite luz amarela

como vela acesa

em cela de convento.

 

 

Jardins do Palácio de Cristal

 

O jornal deu emprego ao tempo,

serviu-se das tuas mãos

para fazer desfilar em voz baixa

os óbitos do dia.

O vento desce das tílias

para folheá-lo no banco de jardim

onde as pombas se ocupam da velhice

e o cigarro, cravado,

sabe ao sol da manhã,

ao sol redondo e perfeito

de uma manhã iletrada.

 

Um par de pernas ondeia

por entre canteiros de flores,

um par de pernas com livros

a caminho da biblioteca,

levando rasgado no peito

um decote redondo e perfeito.

 

 

Hominídeos

(ode ao Vale do Rift)

 

para o Rui Manuel Amaral

 

Carregamos a culpa do olhar gasto

nas montras, e do tempo

perdido nos cafés.

 

Fazemos a travessia do Inverno nos quartos

uns dos outros, e aquecemos os dedos

no lume brando da Primavera,

uma e outra vez baixamos o rosto exausto,

às vezes temos vergonha

porque não sabemos ser

o que somos.

 

Empilhados em prédios

ou fechados em condomínios,

 somos flores de estufa,

parecemos limpos mas temos sujo

muitas vezes o coração.

 

Rumamos ao parque das merendas

de vidro aberto, braço de fora

e rádio a tocar,

ou esperamos por mesa

no restaurante à beira-mar

(lavagantes na ementa dominical)

com palavras desmedidas,

mãos sem lugar,

e amor apesar de tudo,

amor a falar baixinho

com medo de se acordar.

 

 

Rugem feras no escuro da sala

depois de jantar,

em magnéticas selvas que documentamos,

experimentando o longínquo temor das coisas longínquas

no ecrã que faz dançar o sofá

com estranha luz de plasma

e alta definição.

 

Morreremos sem pisar de novo

a terra firme da savana.

Esquecer Lucy, seus frágeis,

ternos ossos,

esqueceremos também o apelido

do pai, Leakey,

e onde quer que nos deitemos

estaremos sempre muito longe de casa.

 

Rui Lage

 

publicado por Manuel M. Oliveira às 16:06
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