Sábado, 2 de Fevereiro de 2008

MODOS DE AMAR

 

 

Modo de amar – I

 

Lambe-me as seios
desmancha-me a loucura

 

usa-me as coxas
devasta-me o umbigo

 

abre-me as pernas
põe-nas nos teus ombros

 

e lentamente faz o que te digo:

Modo de amar – II

 

Por-me-ás de borco,
assim inclinada...

 

a nuca a descoberto,
o corpo em movimento...

 

a testa a tocar
a almofada,
que os cabelos afloram,
tempo a tempo...

 

Por-me-ás de borco;
Digo:
ajoelhada...

 

as pernas longas
firmadas no lençol...

 

e não há nada, meu amor,
já nada, que não façamos como quem consome...

 

(Por-me-ás de borco,
assim inclinada...

 

os meus seios pendentes
nas tuas mãos fechadas.)

 

Modo de amar – III

 

É bom nadar assim
em cima do teu corpo
enquanto tu mergulhas já dentro do meu

Ambos piscinas que a nado atravessamos
de costas tu meu amor
de bruços eu

 

Modo de amar – IV

 

Encostada de costas
ao teu peito

 

em leque as pernas
abertas
o ventre inclinado

 

ambos de pé
formando lentos gestos

 

as sombras brandas
tombadas no soalho

 

Modo de amar – V

 

Docemente amor
ainda docemente

 

o tacto é pouco
e curvo sob os lábios

 

e se um anel no corpo
é saliente
digamos que é da pedra
em que se rasga

 

opala enorme
e morna
tão fremente

 

dália suposta
sob o calor da carne

 

lábios cedidos
de pétalas dormentes

 

Louca ametista
com odores de tarde

 

Avidamente amor
com desespero e calma

 

as mãos subindo
pela cintura dada
aos dedos puros
numa aridez de praia
que a curvam loucos até ao chão da sala

 

Ferozmente amor
com torpidez e raiva

as ancas descendo como cabras
tão estreitas e duras
que desarmam
a tepidez das minhas
que se abrem

 

E logo os ombros
descaem
e os cabelos

 

desfalecem as coxas que retomam
das tuas
o pecado
e o vencê-lo
em cada movimento em que se domam

 

Suavemente amor
agora velozmente

 

os rins suspensos
os pulsos
e as espáduas

 

o ventre erecto
enquanto vai crescendo
planta viva entre as minhas nádegas

 

Modo de amar – Vl

 

Inclina os ombros
e deixa
que as minhas mãos avancem
na branda madeira

 

Na densa madeixa do teu ventre.

 

Deixa
que te entreabra as pernas
docemente

 

Modo de amar – VII

 

Secreto o nó na curva
do meu espasmo

 

E o cume mais claro
dos joelhos
que desdobrados jorram dos espelhos

 

ou dos teus ombros os meus:
flancos
na luz de Maio

 

Modo de amar – VIII

 

Que macias as pernas
na penumbra

e as ancas
subidas
nos dedos que as desviam

 

Entreabro devagar
a fenda – o fundo
a febre
dos meus lábios

 

e a tua língua
Vagarosa:

 

toma – morde
lambe
essa humidade esguia

Modo de amar – IX

 

Enlaçam as pernas
as pernas
e as ancas

 

o ar estagnado
que se estende
no quarto

 

As pernas que se deitam
ao comprido
sob as pernas

 

E sobre as pernas vencem o gemido

 

Flor nascida no vagar do quarto

 

Modo de amar – X

 

A praia da memória
a sulcos feita
a partir da cintura:

 

a boca
os ombros

 

na tua mansa língua que caminha
a abrir-me devagar
a pouco e pouco

 

Globo onde a sede
se eterniza
Piscina onde o tempo se desmancha
a anca repousada
que inclinas
as pernas retezadas que levantas

 

E logo
são os dentes que limitam

mas logo
estão os labios que adormentam
no quente retomar de uma saliva
que me penetra em vácuo
até ao ventre

 

o vínculo do vento
a vastidão do tempo

 

o vício dos dedos
no cabelo

 

E o rigor dos corpos
que já esquece
na mais lenta maneira de vencê-los

 

Modo de amar – XI

 

((Teu) Baixo ventre)

 

Nunca adormece a boca no
teu peito

 

a minha boca no teu baixo
ventre
a beber devagar o que é
desfeito

 

Modo de amar – XII

(Os testiculos)

 

Tenho nas mãos
teus testiculos
e a boca já tão perto

 

que deles te sinto
o vício
num gosto de vinho aberto

 

Modo de amar – XIII


(As pedras – As pernas)

 

São as pedras
meus seios
São as pernas

 

pele e brandura
no interior dos
lábios

 

rosa de leite
que sobe devagar
na doce pedra
do muco dos meus lábios

 

São as pedras
meus seios
São as pernas

 

Pêssegos nus corpo
descascados

 

Saliva acesa
que a língua vai cedendo

 

o gozo em cima...
na pedra dos meus
lábios

 

Jogo do corpo
a roçar o tempo
que já passado só se de memória,
a mão dolente
como quem masturba entre os joelhos...
uma longa história...

 

Estrada ocupada
onde se vislumbra
(joelhos desviados na almofada )

 

assim aberta o fim de que desfruta
o fruto do odor
o fundo todo
do corpo já fechado.

 

Modo de amar – XIV

(As rosas nos joelhos)

 

São grinaldas de rosas
à roda
dos joelhos

 

O âmbar dos teus dentes
nos sentidos

 

O templo da boca
no côncavo do espelho
onde o meu corpo espia
os teus gemidos

 

É o gomo depois...
e em seguida a polpa...

 

o penetrar do dedo...
O punho do punhal

 

que na carne enterras
docemente
como quem adormenta
o que é fatal

 

É a urze debaixo
e o fogo que acalenta
o peixe
que desliza no umbigo

 

piscina funda
na boca mais sedenta bordada a cuspo
na pele do umbigo

 

E se desdigo a febre
dos teus olhos
logo me entrego à febre
do teu ventre

 

que vai vencendo
as rosas – os escolhos
à roda dos joelhos, docemente.

 

Modo de amar – XV

(A boca – A rosa)

 

Entreabre-se a boca
na saliva da rosa

 

no raso da fenda
na fissura das pernas

 

Entreabre-se a rosa
na boca que descerra
no topo do corpo
a rosa entreaberta

 

E prolonga-se a haste
a língua na fissura
na boca da rosa
na caverna das pernas

 

que aí se entre-curva
se afunda
se perde

 

se entreabre a rosa
entre a boca
das pétalas

Maria Tereza Horta

PS.: ler ao som do Bolero de Ravel

publicado por Manuel M. Oliveira às 18:21
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1 comentário:
De henrique doria a 3 de Fevereiro de 2008 às 15:29
É Manel, isto é muito sexo! Um abraço.

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