o teu nome meu amor o teu nome amanhecia quando
num verso a lua num homem o silente beijar de um afecto
quando em minhas mãos as tuas quando em lisboa o mar
o mar
trazias os verdes gestos de quem tão brevemente como regressa
de forma tão breve acaba sempre por partir
os verdes e redondos gestos de um nome por exemplo de pássaro ave migrante
o curvo e disponível nome de um navio fazendo escala
em todos os portos do mundo em todos os homens um beijo
trazias os braços e o peito vastos como o mar que te mora
os braços e o peito como luzidias pérolas
como o madrugar frio das ondas os braços e o peito como o inaugurar
da possibilidade onírica desta minha terra
em lisboa acontecemos em lisboa acontecemos há tão distante tempo
meu amor
e quantas marés terão entretanto socorrido a azul largueza
de nossa ausência.
eterna noiva do mar
o nosso verbo tão demorado como contrário à permanência do homem no
seu exacto instante presente e eu sei meu amor eu sei que nesse tempo
o meu corpo e a minha palavra não foram outros senão o nosso corpo
e a nossa palavra não foram outros senão o incisivo inscrever de nosso desejo
no túmulo do mundo
que nesse tempo meus pés talharam a sua geométrica simultaneidade
que nesse tempo logrei surpreender minha própria imagem tatuada
como deslumbre nos vidros embaciados dos edifícios
alquímica aspiração dos homens
evidente palimpsesto de todas as efemeridades e
fechando agora os olhos tanto tanto tempo depois ainda regresso a essa praia
que se ergueu como éden na fresca sombra de tua boca
e ainda os vejo
meus paralelos passos sepultados no mais invejável dos silêncios sem que
neles a luz implique outro tempo senão o da sua tranquila e inominada espera
pelo teu cintilante regressar
e que os banhes como a maré
que os venhas recolher como a um pedaço de teu mar.
como tuas mãos me estenderam o vislumbrar de meu nome
e como também a cidade se me revelou pela tua voz qual fantástica ilha
de trezenzónio como se me iluminaram a partir de dentro os nomes das ruas apenas
pela dança de teu caminhar como toda uma nova lisboa se ergueu nas
palavras dos temíveis e derradeiros viajantes da noite da cidade
e como em suas palavras floresceu também a nova luminosidade que teus
cabelos nas avenidas dispunham como um oceânico e exorável ouro
ornato númen teus cabelos soltos como o sibilante dizer de uma canção
na mais remota língua dos homens e do aroma da tua voz o apreender
do alimento que incendeia nossas vidas
a dissidente língua de lord chandos
e recordo-te agora desta mesa de café junto do porto de lisboa
recordo o fim de tarde em que do texto irrompeste como um
solidário e apaixonante braço tomando-me no profundo
do sangue
meu amor
o teu nome amanhecia como último pássaro quando
num verso a lua num homem o singular beijar de um afecto
quando em minhas mãos as tuas quando em lisboa o mar
quando no silêncio de nossas noites todas as possíveis canções
toda a ciência das coisas celestes ali tão de feição nos lábios
tão de feição no aproximar dos sexos no aproximar do rosto sobre a página e
tantas vezes o rosto entre as mãos
tantas vezes a mesa sozinha a cadeira sozinha na obliqua
posição de quem espera espera espera
uma espera além da construção do devir
os olhos baixos em torno de todo o espaço conferindo a implacável simetria
do abandono
tantas vezes os barcos tantas vezes as vozes esvaziando-se lentamente
do seu poder enunciativo
e nesta mesa de café morrendo morrendo.
recordo o fim de tarde em que tua salgadiça luz aconteceu
diante do espelho em que já me inscrevera e como tão doce
foi teu corpo dançando no meu minha boca dançando na tua
ali na sempre leviana qualidade da página ali naquela mesa de café
ali naquela lisboa de que hoje serenamente me despojo
para que no dia em nada mais senão o meu corpo me reste
possa também eu me fazer ao mar e partir no encalce das estrelas.
o teu nome meu amor o teu nome eterna noiva do mar na manhã em que partiste
antes de meus olhos fechados e como te esperei nesse vigilante lusco-fusco
entre todos os grandes dias e todas as grandes noites e como te esperei
nessa tua praia essa praia que acontece sempre que em um homem
a nua mão de outrem se desvenda
e esses grandes dias e essas grandes noites aperfeiçoando minuciosamente
os possíveis rumos da grande cidade
mas definitivo era o teu silêncio e definitivo o cerrar de minhas pálpebras
sozinho enfrentaria a minha última grande noite.
e recordo-te agora desta mesa de café junto do porto de lisboa
recordo o fim de tarde em que do texto o distinto marulhar de tua distante voz
foi a perfeita casa de todas as minhas palavras a perfeita medida
de meu corpo a exacta cor de minha pele
em ti aconteci como um homem dotado de um nome
um pedaço de carne e sonho
e meu amor ergueste-me uma cidade que ao teu toque
é já uma outra cidade um rio que é já um incomensurável mar
somente pelo perfume de tua aura arredondada pelas ondas
tua boca de maresia tua boca de um país distante
talvez perdido no mais fundo dos oceanos
um país para sempre gravado a sal na recordação de teu nome meu amor
pelas ruas desta lisboa que caminhámos juntos
bebendo dos passos um do outro a superior magia
de um homem resgatado em si próprio
volto todos os dias ao anoitecer a essa tua praia
a cidade repousa
o céu abandonado em um alvo silêncio
e é teu nome que chamo
o teu nome meu amor
e o teu nome eternamente amanhece quando
num verso a lua de todos os poemas e de todas as palavras
em meu peito o silente beijar de todas as plantas todos os animais
todos os grandes dias e todas as grandes noites
quando em minhas mãos o adivinhar das tuas
e quando em lisboa o mar
o mar
boa noite
regressar-te-ei.
Hugo Manuel Milhanas Machado
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