No dia em que falarem de mim
como de alguém que passou
e depositarem ramos de flores
junto à lápide encomendada,
direi convicto: também eu vivi,
também eu, mortos, vos esqueci,
ou fiz de conta, perdoai-me,
que não era nada comigo.
E prometo, se for o caso,
acenar do cimo das nuvens,
(harpa nas mãos tangida
sob as arcadas do paraíso)
aos que apareçam na varanda
dos prédios onde morei
— caso ainda se tenham de pé —
e onde, umas vezes mal,
outras vezes bem,
me deixei de palavras, de versos,
e amei.
Mesmo não tendo rezado
ou confessado pecados, ou comungado,
estive sentado em solo sagrado,
frequentei igrejas,
admirei os vitrais de Chartres,
persignei-me com a sinceridade possível
(não fosse alguém reparar)
e munido de um bom pretexto
para repousar as sandálias
nas pedras tementes a Deus,
bebi da garrafa de água frizzante,
mudei o rolo da máquina
e converti-me aos encantos do cristianismo.
Uma vez, eu pecador me confesso,
lavei as mãos nas santas águas
de uma pia baptismal.
para Agostinho Santos, Álvaro Magalha Joâo Luís e Manuel António Pina
Somos daquela espécie de gente
que se frequenta dia após dia
(às mesmas horas sempre),
umas vezes como quem parte
outras como quem chega
e deixa no bloco de notas
secreto pensamento
colhido na mesa em frente.
Daquela espécie de gente
que recebe sonoros abraços
e assina pactos de solidão
enquanto os empregados,
sonolentos, apagam as luzes
— alumiavam nossas cabeças
esquecidas de ir embora.
Seguram na porta que dá para nós,
longos e vazios corredores
de onde queremos às vezes
(mas não podemos)
sair.
V.C.I.
para Paulo Evaristo e Pedro Quezada
O cântico dos carros sobe do asfalto.
Há quem venha espreitar a recolha do lixo
depois de jantar, enquanto fuma à janela,
respondendo para dentro à voz de criança
que chama no quarto, ou mais perto,
àquela que diz haver pratos na mesa
por levantar.
O jornal deu emprego ao tempo,
serviu-se das tuas mãos
para fazer desfilar em voz baixa
os óbitos do dia.
O vento desce das tílias
para folheá-lo no banco de jardim
onde as pombas se ocupam da velhice
e o cigarro, cravado,
sabe ao sol da manhã,
ao sol redondo e perfeito
de uma manhã iletrada.
Um par de pernas ondeia
por entre canteiros de flores,
um par de pernas com livros
a caminho da biblioteca,
levando rasgado no peito
um decote redondo e perfeito.
Hominídeos
(ode ao Vale do Rift)
para o Rui Manuel Amaral
Carregamos a culpa do olhar gasto
nas montras, e do tempo
perdido nos cafés.
Fazemos a travessia do Inverno nos quartos
uns dos outros, e aquecemos os dedos
no lume brando da Primavera,
uma e outra vez baixamos o rosto exausto,
às vezes temos vergonha
porque não sabemos ser
o que somos.
Empilhados em prédios
ou fechados em condomínios,
somos flores de estufa,
parecemos limpos mas temos sujo
muitas vezes o coração.
Rumamos ao parque das merendas
de vidro aberto, braço de fora
e rádio a tocar,
ou esperamos por mesa
no restaurante à beira-mar
(lavagantes na ementa dominical)
com palavras desmedidas,
mãos sem lugar,
e amor apesar de tudo,
amor a falar baixinho
com medo de se acordar.
Rugem feras no escuro da sala
depois de jantar,
em magnéticas selvas que documentamos,
experimentando o longínquo temor das coisas longínquas
no ecrã que faz dançar o sofá
com estranha luz de plasma
e alta definição.
Morreremos sem pisar de novo
a terra firme da savana.
Esquecer Lucy, seus frágeis,
ternos ossos,
esqueceremos também o apelido
do pai, Leakey,
e onde quer que nos deitemos
estaremos sempre muito longe de casa.
Rui Lage
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